O Sofrimento da Transexual Remilia no Contexto Atual

Remile foi vítima de uma cirurgia mal sucedida com um médico charlatão.
Remilia foi vítima de uma cirurgia malsucedida com um médico charlatão.

Artigo enviado por Juliano DeBois (julianodebois@zipmail.com.br) para o Sognare lucido

Recentemente, a conhecida transexual do meio gamer, Maria Remilia Creveling, que participava de torneios esportivos do jogo League of Legends, veio a tona afirmar que foi vítima de uma malsucedida cirurgia de mudança de sexo e atualmente finda em lancinante dor crônica devido ao procedimento. A altura, Remilia teria passado por um catastrófico procedimento com um cirurgião de Bangkok, conhecido pela alcunha de “açougueiro de Bangkok”.

Remilia fazia parte de um time -chamado Renegades– que disputava campeonatos dos atualmente conhecidos eSports de LOL. Uma promessa lhe foi feita por Chris Badawi-sócio da equipe- de pagar-lhe uma cirurgia de redesignação sexual com a condição de que ajudasse sua equipe a avançar nos campeonatos do game. Chris, entretanto, contratou um cirurgião de quinta categoria por um preço miseravelmente baixo.

Com a saúde mental fragilizada e sem condições de procurar ajuda, Remi relata que aceitou o acordo, mas que acabou sendo operada em uma clínica clandestina na Tailândia. Tendo apenas a mãe de Badawi como psicóloga, que ainda corroborou com a situação, a jogadora afirma que suas semanas na LCS foram difíceis, já que estava com tendências suicidas e muita dor da cirurgia.

“Eu estava me cortando e [tinha impulso] suicida durante minha passagem pela LCS e não tinha prescrições como tenho agora”, escreveu ela. “A dor era absolutamente insuportável e eu ainda tinha que subir no palco todo final de semana e dilatar** todo dia”. http://www.espn.com.br/esports/artigo/_/id/4135586/a-historia-de-remilia-ex-jogadora-de-league-of-legends-teve-sua-vida-devastada-pela-renegades

Remilia era bonita. Seu olhar meigo- onírico- sua inocência e fé, pululavam aos olhos. Sua vaidade cintilante e sua paixão por jogos eletrônicos, associadas a uma disforia de gênero latente, levaram-na a um desfecho cruel: uma perigosa cirurgia, moldada a toneladas de ideologia, feita por um charlatão e induzida por outro. Uma cirurgia que poderia ter sido evitada ou pelo menos postergada para uma outra oportunidade com um médico qualificado, de fato, caso Remilia aceitasse seu sexo biológico e tivesse afastado-se de Chris- ao tempo em que mantivesse a identidade de transsexual, um direito seu. Sim, essa tragédia poderia ter sido evitada. Punir severa e corretamente Chris, sua mãe (a psicóloga que acompanhou-a em Bangkok), e o médico charlatão, pode lavar sua alma, mas a dor crônica e os traumas físicos e espirituais são incuráveis.

Renegades: equipe envolvida no escândalo de Remilia e banida da Riot, desenvolvedora de League of Legends
Renegades: equipe envolvida no escândalo de Remilia e banida da Riot, desenvolvedora de League of Legends

Bom, deixo claro que, como homossexual, não tenho interesse em adentrar na vida íntima de ninguém. Mas também não sou cego: a “transmania” passou de todos os limites. Transexuais, travestis ou afeminados (atualmente chamados de crossdressers )sempre existiram. Sempre existiu também quem se relacionasse com eles-elas- e não importo-me com os gostos sexuais de ninguém, desde que, obviamente, as partes envolvidas sejam adultas. Não é novidade, para quem tem mais de 30 anos, que programas como os antigos Bolinha e o Show de Calouros do Silvio Santos abriram as portas para que estas pessoas pudessem vir a público mostrar sua face humanizada: Elas se aceitavam como transexuais e travestis, não precisavam de oximoros ideológicos como “mulher trans”. Mas eu também creio que relegar o transexual ao obscurantismo existencial e a marginalidade, contribui para a disseminação de níveis alarmantes de HIV na comunidade trans (que quase sempre emprega-se na prostituição, infelizmente), o desemprego, a baixa expectativa de vida e a violência.

Porém essa “transmania”, propagada pela mídia, agentes públicos e ongueiros, passou dos limites e tornou-se uma questão de saúde pública (com direito do Estado metendo o bedelho), porque injetou no imaginário popular a noção de que colocar toneladas de hormônios em crianças e adolescentes e passar por uma cirurgia de alto risco é normal, simples e seguro. Não, não é. A cirurgia é um procedimento cirúrgico extremamente complicado com altas taxas de infecção e um longo pós-operatório que pode desandar em dor crônica intratável. E as maiores vítimas são as pessoas transexuais com sequelas cirúrgicas (elas caem nas estatísticas da iatrogenia, o popular erro médico ou caso fortuito em medicina). Curiosamente, as vítimas não valem nota na imprensa quando vão contra o discurso vigente da “transmania” (de que a cirurgia é segura e eficaz). Remilia, exceção da regra devido ao contexto, padecia de depressão e era frequentadora de fóruns na Web onde frequentemente sofria bombardeios que reforçavam sua necessidade de “ser mulher” e não se sabe o quanto essa urgência levou-a, apressadamente, a ser vítima de dois charlatães de marca maior, o tal açougueiro de Bangkok e Cris Badawi.

Indicação de Leitura

when_harry_became_sally
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Em seu livro, When Harry Became Sally: Responding to the Transgender Moment, Ryan T. Anderson (pesquisador sênior da Heritage Foundation), ao invés de julgar as pessoas por suas opções, prefere lançar luz sobre este perigoso momento que vivemos.

Ele revela um contraste sombrio entre a representação ensolarada da mídia e as tristes realidades das lutas pela identidade de gênero. Ele introduz os leitores às pessoas que tentaram “fazer a transição”, mas não se encontraram melhor após o procedimento. Especialmente preocupante é o sofrimento sentido por adultos que foram encorajados a fazer a transição quando crianças, mas depois se arrependeram.

E há uma razão pela qual muitos se arrependem. Como mostra Anderson, as terapias mais úteis não se concentram em alcançar o impossível – mudar de corpo para se adaptar a pensamentos e sentimentos -, mas também em ajudar o indivíduo a aceitar e até abraçar a verdade sobre seus corpos e a realidade. Essa discussão será de particular interesse para os pais que temem em como um conselheiro escolar ideologicamente alinhado poderia tentar orientar seu filho. A melhor evidência mostra que a grande maioria das crianças cresce naturalmente livre de qualquer fase conflitante de gênero. Mas ninguém sabe como as novas políticas escolares podem afetar as crianças doutrinadas a acreditar que estão realmente presas no corpo “errado”.

Ao longo do livro, Anderson destaca as várias contradições no cerne deste debate: como o mesmo abraça a idéia gnóstica de que o “eu real” é outra coisa que não o corpo, ao mesmo tempo em que abraça a ideia de que nada além do físico existe. Como esta ideologia se baseia em rígidos estereótipos sexuais – nos quais bonecas são para meninas e caminhões são para meninos – ao mesmo tempo em que insiste que o gênero é puramente uma construção social e que não há diferenças significativas entre mulheres e homens. Como isso pressupõe que os sentimentos de identidade merecem respeito absoluto, enquanto os fatos da nossa corporificação não merecem o mesmo respaldo. Como o debate prega que as pessoas devem ser livres para fazer o que quiserem e definir sua própria verdade – enquanto reforça uma campanha implacável para coagir qualquer um que ouse discordar – inclusive tirando-lhe o emprego.

Todos têm algo em jogo nos debates de hoje sobre identidade de gênero. Analisando as políticas de educação e emprego, as leis sobre banheiros e vestiários na era Obama, os códigos de fala politicamente corretos e as violações de liberdade religiosa (ou questionamentos científicos, como ocorreu com o prof. Jordan Peterson, que se opôs a obrigação legal de usar pronomes neutros para referir-se a pessoas trans), Anderson mostra como a lei está sendo usada para coagir e penalizar aqueles que acreditam na verdade sobre a natureza humana. E ele mostra como os americanos podem começar a recuar com princípios e prudência, compaixão e graça:

“Não consegui tirar da cabeça os relatos das pessoas que ‘destransicionaram’. São de partir o coração. Fiz o que eu precisava fazer para ajudar a impedir que mais pessoas passem pelo mesmo sofrimento.”

Fontes:
A história de Remilia: ex-jogadora de League of Legends teve sua vida devastada pela Renegades, http://www.espn.com.br/esports/artigo/_/id/4135586/a-historia-de-remilia-ex-jogadora-de-league-of-legends-teve-sua-vida-devastada-pela-renegades
É hora de repensar o discurso transgênero http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/e-hora-de-repensar-o-discurso-transgenero-44divw9dmssd101b2f27vz5s8
When Harry Became Sally: Responding to the Transgender Moment https://www.amazon.com/gp/product/1594039615/ref=as_li_tl?ie=UTF8&tag=r02ea-20&camp=1789&creative=9325&linkCode=as2&creativeASIN=1594039615&linkId=881c411a53c19bdc88add1e7d25e5246

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