Médicos, cirurgias e profunda falta de ética

“A ciência médica fez tanto progresso nas últimas décadas
que hoje, praticamente, não existe mais
nenhuma pessoa sadia!”
Aldous Huxley

Escrevo este texto no rastro do profundo desgosto que precedeu e acompanha minha vida atualmente. O intuito é alertar o meu parco público leitor (se eu puder ajudar um, já terá grande valia) sobre os médicos, cirurgiões e quejandos (incluindo anestesistas) de postura anti-ética e profunda irresponsabilidade em relação a qualidade de vida de seus tutelados pacientes. Antes, faço referência ao Código de Ética Médica, no Art. 59, para posteriormente imergir o caro leitor no cerne da questão:

Código de Ética Médica – Art 59◦ – É vedado ao médico deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta ao mesmo possa provocar-lhe dano, devendo nesse caso, a comunicação ser feita ao seu responsável legal.

Dito isto, perpassando pelo direito e citando a advogada Fernando Elisa de Borba, alerto o público que pretende passar por procedimento cirúrgico qualquer e pegou, inadvertida e docilmente ou por absoluta falta de opção (na caso dos sofridos filhos de Deus que dependem do SUS), um mercenário açougueiro travestido de médico, desses que sugam cirurgias dos planos de saúde com o intuito de fechar o mês no “azul” e aproveitam um procedimento mais simples para entubar o paciente de procedimentos acessórios (um desses que vai operar o apêndice do infeliz e no ensejo, arranca a vesícula, as verrugas, os sinais, o baço e opera a fimose, que é o bônus na conta). Agora, sim! Citação da renomada advogada:

Como já mencionado, o médico, também, poderá ser responsabilizado, mesmo quando não tiver sido negligente na consecução do ato cirúrgico, quando a cirurgia tiver sido ministrada sem o consentimento livre e esclarecido do paciente e houver dano proveniente do nexo entre a falta de informação e o prejuízo final, devendo a vítima demonstrar que o dano está relacionado a um risco sobre o qual deveria ter sido alertada.

Foco aqui no esclarecido consentimento, para proteger o “paciente de amanhã” nas salas de cirurgia. Ocorre, que alguns destes “senhores doutores”, muitas vezes com décadas de carreirismo na medicina, sedentos por sangue e remendos financeiros provindos da miséria que pagam os planos de saúde, jogam tudo pro ar e não esclarecem seus pacientes do que pode ocorrer, caso sejam submetidos a um procedimento médico, especialmente os cirúrgicos. É comum o paciente não saber que a anestesia raquidiana, só para citar um exemplo, pode causar severa dor de cabeça e sequelas  neurológicas graves, como cita Ganem, 2002: “lesão de nervo desencadeada pela agulha e cateter, cefaléia pós-punção, síndrome da artéria espinhal anterior, hematoma espinhal, meningite bacteriana, meningite asséptica, aracnoidite adesiva, síndrome da cauda eqüina e sintomas neurológicos transitórios[…]”. Geralmente, o coitado só descobre quando algo ocorre, sentindo na própria pele um desses sintomas, alguns muito sérios, como a terrível Síndrome da Cauda Equina. É bem verdade que os sintomas são raros e se você vai submeter-se a uma cirurgia necessária, tem de arcar com possíveis efeitos. De fato, é bem calhorda o médico que não adverte seu paciente em procedimentos de pouca urgência, ou simplesmente os estéticos, sobre os efeitos adversos das cirurgias a que serão submetidos. Não só calhorda, como merecedor de processo civil e queixa no Conselho Médico, em caso de sequela não advertida. Infelizmente, por falta de mecanismo legal, é difícil um processo penal mais sério que “fiche” o praticante irresponsável da medicina, ou mesmo a cassação, antes que o miserável mate alguém numa mesa de operação.

No meu caso, um conhecido médico de Olinda, em Pernambuco, realizou procedimento cirúrgico “simples” em meu corpo, há um bom tempo atrás, e não me alertou que tal intento poderia causar-me uma sequela linfática de progressão lenta, incapacitante e deformadora. Na consulta do pós-operatório, a sequela já era visível e ao ser questionado, o hipócrita afirmou que era comum em 12,5% dos casos, e no meu, em 25%, dada a maior complexidade da cirurgia. Como quem, brincando com a saúde alheia, entrega um “presente de grego”, o hipócrita, com o bolso cheio da grana obtida com a cirurgia, fez uma mêa-culpa e tirou o corpo fora. Não me deu alta, mandando um colega seu no lugar, e sequer pude conversar com o anestesista, não chegando a trocar duas palavras enquanto estava sedado. Sendo este, um procedimento padrão antes de qualquer cirurgia.

O resultado é que preciso de um novo procedimento, com internação, mais arriscado e muito mais doloroso, para corrigir o ato de profundo desrespeito e irresponsabilidade desse médico que operou-me. O detalhe, que vim saber algum tempo depois, é que eu nem precisava da primeira cirurgia, minha condição demandava observação e acompanhamento. Em último caso, cirurgia. O intuito do médico era claramente “pegar mais um” paciente “trouxa” e sorver algum trocado em cima dele. E como a sequela é de lenta progressão, ele sabia que eu mal iria perceber no ínicio, o tempo passaria e um processo judicial se tornaria inviável, até pela prescrição.

Acho que basicamente é isto: quando forem se submeter a uma cirurgia, sempre peçam uma segunda opinião, para saber se o procedimento é necessário. Procurem referências sobre o médico, não acredite em tudo que ele diz e pesquise de outras fontes. Se você desconfiar que está nas mãos de uma açougueiro mercenário e aceitar isso… Acredite, você está brincando com sua vida e muito pior que a morte, essa sim a derradeira sequela, ou a doença pré-existente (muitas vezes perfeitamente suportável) é ficar inválido ou se contorcendo de dores numa cama, procurando uma posição onde o açoite doloroso seja menor, por um ato de improbidade médica ou se lamentando por um trauma do qual você não tem a menor culpa de ter ocorrido.

“Para o paciente, entrar em um consultório médico
é 30 vezes mais arriscado do que uma expedição ao Himalaia”
Dr. Julius Hackethal, médico alemão (1921-1997)


Fontes:

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8 comentários

  1. passei por uma postectomia em 2015, meu médico tbm achou que seria adequado fazer uma de varicocele. Em uma das consultas, tbm descobri que sou estéril. Quando ele mencionou a cirurgia de varicocele, disse q seria bom se eu fizesse, então não discuti, não questionei. Ele era o médico, acreditei q saberia o q estava fazendo… Eu deveria ter buscado uma segunda opinião. Agora to suspeitando de hidrocele, mas nem sei o que fazer! To pensando em falar com ele, marcar uma consulta.. o q vcs acham?

  2. A pediatra do meu filho, disse que ele tem que retirar a adenoide. Então procurei um otorrino, e ele quer retirar a adenoide,abrir as conchas nasais,retirar as amígdalas, e ainda quer fazer uma timpanoplastia,tudo isso numa criança de dois anos.É mole?! Acho que encontrei um açougueiro…A cirurgia está agendada para o dia 08/06/13.No dia 07/06, levarei meu filho na pediatra e pedirei a opinião dela, mas a minha já está formada: Ele não fará cirurgia nenhuma,não com esse otorrino.

    • Flávia…No meu caso, se pudesse, teria pulado da mesa de cirurgia 1 minuto antes! Mesmo já sedado, e teria mandado o cirurgião que me operou pra aquele lugar. Infelizmente, ele fez a “feira”. É uma pratica muito comum entre estes canalhas, muitas vezes blindados pelos CRMs: Realizam múltiplos procedimentos em pacientes pra fechar a conta no azul, ou porque os planos pagam pouco, ou porque são simplesmente açougueiros mesmo. Não conheço o seu caso, mas cuidado! Peça uma segunda opinião de um bom médico…E tome o cuidado de guardar a documentação e as receitas da cirurgia. Qualquer coisa, Processe mesmo! Na minha opinião, cirurgião que age por imprudência ou ambição, deveria ser cassado e preso! Infelizmente, nesse país, esses caras nunca vão ver o sol nascer quadrado.

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