Pantone: Picaretagem chique

Nos meus, ainda recentes, tempos de estudante universitário de design, lembro-me de um professor de linguagem visual que não titubeava em dizer que vender paletas de cor como “novidade” era pura treta, picaretagem da mais ultrajante.

Na época torcei o nariz: o sujeito era mais um velho mestre louco, revoltado, incompreendido e infeliz por tanto estudar. Hoje sei que ele estava mais do que certo.
Na prática a coisa funciona assim: Uma grande empresa, com domínio claro em teoria das cores, resolve misturar pigmentos para obter novas cores, dar-lhes um nome e imprime uma paleta num maço semelhante a um baralho para vender a designers e fabricantes deslumbrados ou bitolados (adjetivo bastante comum no meio), depois sai por aí afirmando que garante precisão de 95% a 100% na fidelidade da reprodução das mesmas nos mais variados suportes, como tecidos, impressos e produtos manufaturados diversos. Como se isso lhe fosse exclusividade.

Foi o que aconteceu com a Pantone. Em 1962, Lawrence Herbert era diretor de uma pequena companhia que vendia cartões de cores para empresas de cosméticos. Em 1963 ele adquire a empresa e cria os Guias Pantone, que são os cartões de cores contendo tabelas quase infinitas de representação. Porém, os problemas de se adotar o padrão Pantone são vários: a degradação natural das tintas, exigindo de seu usuário a troca anual das Guias; as paletas são proprietárias e exigem o pagamento de royalties pela sua utilização, sistema onde o usuário paga para utilizar um processo natural de representação da cor aditiva ou subtrativa presente no espectro visual; e como as paletas são proprietárias e exigem uma licença de uso, muitos designers e governos simplesmente ignoram esta premissa e põem a Pantone em projetos de identidade institucionais, como foi o caso da Bandeira da Kórea do Sul, Canadá e  Escócia. Além do logotipo de muitas universidades, sem saber que existem métodos de grande acuidade na representação da cor aditiva e subtrativa e de livre uso (representação RGB, Hexa etc.) e ignorando o fato de que as cores da paleta variam conforme o tempo. E o principal problema: Monopólio na disponibilização de um “padrão universal” que exige subserviência de seus usuários por ser um método proprietário e patenteado.

Como a ciência da cor meio que fugiu do mundo acadêmico, ficando relegada ao sistema corporativista das grandes indústrias, não houve um grande interesse em padronizar uma paleta de cores que pudesse ser utilizada como “cores SPOT” na indústria gráfica: aquelas em que se precisa de um pigmento especial, ou um material diferente, para se obter um resultado bom no processo de impressão. O resultado foi o monopólio da Pantone, que se acentuou com a ramificação da informática entre profissionais e amadores diversos, visto que suas paletas passaram a ser solução default em muitos softwares, como o Photoshop. E o resultado é isso que vemos: pequenos fabricantes de paletas alternativas, marginalizados pela Pantone, imposição do copyright da cor e alguns designers obcecados ao ponto de quererem pôr as cores Pantone até em fotografias! Encarecendo, sem qualquer sentido, o preço final da impressão. O pior, como as cores se degradam, muitos crêem que daqui a 2 anos seus projetos ainda terão qualquer acuidade visual no tocante ao espectro das cores.

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