Cinema, juventude, paixão e vida…

Estava vendo o filme Juventude Perdida de Christine Jeffs, e confesso que foi uma grata surpresa. Vejo que estas peças cinematográficas, como American Beauty, Eu, Christiane F., 13 anos drogada e prostituída, Réquiem para um sonho, KIDS, et caterva, têm um tom melancólico e resignado que hora se traduzem em mero oportunismo, enquanto em outras ocasiões são golpes violentos contra nossos passados inacabados, sensações mal-vividas e juventudes estilhaçadas. Juventude Perdida é tudo isso. É claustrofóbico, agorafóbico e agonizante, porém, sobretudo, sublime.

Um outro autor, mais visceral que Christine, que bebeu (e ainda bebe), dessa fonte dramática movida a ímpetos juvenis, foi Larry Clark, com seu brilhante KIDS, explorando contradições da sociedade americana e seus jovens rebeldes vivendo num mundo próprio de drogas e sexo casual  promíscuo, regado a tragédia da AIDS na adolescência a destroçar rostinhos angelicais e pervertidos. Clark, entretanto, errou a mão com seu péssimo Ken Park, filme quase pornô embebido em tragédia e violência gratuita, cuja única função é chocar o espectador.

Esses filmes são dramas juvenis, simuladores, ou melhor, emuladores da vida real, que falam diretamente ao seu público, quase como literatura de auto-ajuda, alimentando vísceras esvaziadas com auto-piedade e lágrimas incontidas. Juventude Perdida, por exemplo, é um belo drama familiar, muito diferente daquelas baboseiras americanas que passam em canais pagos, como o Hallmark Channel ou a HBO.

Porém, a película que mais me tocou, na verdade me coiceou, foi A última Noite (25ª hora), filme de Spike Lee, com o aclamado Edward Norton. Gravado numa Nova York que ainda transpirava a poeira dos escombros das Torres Gêmeas, causou-me verdadeira comoção, pelo roteiro preciso, a direção certeira e a imediata identificação entre o momento que estou vivendo e a história do protagonista, Monty Brogan.

Brogan está desfrutando de seu último dia de liberdade, condenado por tráfico de drogas, encontra-se no limiar que separa a juventude do fosso profundo e aterrorizante chamado maturidade, tenebrosa sombra que paira na forma de cárcere. Então, nada mais lógico do que passar sua última noite, antes de ser preso, com seus melhores amigos e sua namorada, 10 anos mais jovem, numa balada inesquecível. Os conflitos existenciais todavia não o perdoam, 10 anos traficando drogas e construindo uma vida sobre uma base de barro e areia, ruem em sua mente numa torrente brutal de lembranças nostálgicas e dolorosas. Ele já não tem nada, seu dinheiro sujo foi confiscado, e perderá os próximos 7 anos na cadeia, sofrendo sabe-se lá o quê em termos de humilhações e agressões…Uma vida toda perdida, onde o sorriso resplandecente de sua doce namorada Naturelle (Rosario Dawson), emerge como fonte de fortaleza e talvez traição (suspeita-se que ela seja a sua delatora).

Seus amigos o confortam, mas ele sente-se velho, antecipa o fim do impulso da mocidade desperdiçado na cadeia, odeia a cidade onde vive, e não tolera nada, nem ninguém, até que num rompante depressivo, sua angústia o faz perceber o mais doloroso: Sua própria culpa. Enfim, Monty está a beira do nada, sem futuro e com um pretérito caustificante a incomodar-lhe no presente, restando-lhe a beira do precipício ou um recomeço amargo como fel.

Me identifiquei de sobremaneira com este petardo de Spike Lee, porque me sinto como Monty. Desperdicei o supra-sumo, a polpa viçosa de minha juventude com fantasias tolas, conflitos familiares, idealizações cretinas, NERDices e sonhos infrutíferos. Perdi os melhores beijos nos melhores anos, não plantei meu jardim e por isso não colhi flores vicejantes na primavera. E agora, prestes a me formar, e a encarar o Vale das Lamentações chamado mercado, desfruto da minha 25ª hora com uma moça linda, que encontrei pelos sussurros doces e solitários dos corredores do CAC (Centro de Artes e Comunicação). Assumo que, de imediato, não me apaixonei, mas o dulçor e delicadeza deste lírio tomado pelo frescor do orvalho, despertou-me os sentidos resignados e acabei cedendo.

Engraçado como passamos, nós dois, em tão pouco tempo, por momentos de conflito, resoluções e dilemas capazes de corar Shakespeare com suas tragédias introspectivas. Lembro-me então de um trecho de As alegres Comadres de Windsor, do supracitado autor, “O amor, qual sombra foge, Quando o outro o persegue, Persegue a quem dele foge, foge de quem o persegue”, e sei que, nesta minha última hora antes do caos, quero fazer jus a filosofia de vida da ex-primeira dama Americana Eleanor Roosevelt, que afirmava ser a alegria tanto maior quanto mais beneficia o próximo, e por isso devemos pensar bastante no tipo de felicidade que temos a oferecer.

Assim sendo, gostaria, no canto do cisne, de oferecer o melhor de si a esta mocinha tão mais nova. Que ela desfrute de minha companhia e se sinta muito bem. Não quero ofendê-la com nada, pretendo tratá-la como a dama que é (e sempre foi), e que somente agora descobriu-se como alguém importante, muito especial e bonita. Polly, vamos engarrafar o senso comum e desarrolhar a imaginação, porque isso significa paixão e quando nosso Deus falir, que sua lembrança seja guardada no Livro da Vida como um momento de inqüestionável felicidade, que ninguém poderá nos furtar. Te adoro muito, perdi as rédeas e nem me importo, porque o propósito deste texto não é resenha literária ou artística, é fazer catarse, falar o que sinto, e é isto. Se der certo, fico com você pela curta eternidade, ainda que as paixonites clamem para si, períodos de tempo ilusórios. Senão, bem, aí é outro filme, Antes do Amanhecer, onde um casal se conhece , mas lida com um momento precioso que durará apenas um dia, tendo os dois que se separar pela distância física.

Para os jovens que leram isso, aproveitem suas vidas, estudem, trabalhem e não deixem de ceder as paixões verdadeiras e enebriantes que dão sentido a existência e são a paleta quente das cores da vida. Não percam tempo com timidez, covardia e vícios inúteis. Não aceitem os tons pastéis antes do tempo, eles virão, e cada época tem sua graça e seus dessabores. Não esperem pela 25ª hora, porque vocês podem não ter a mesma sorte.

Deixo a lista de filmes e obras aconselhadas para momentos semelhantes ao que estou passando:

Anúncios

3 comentários

  1. É sobretudo a revelação de sentimentos que em meio a o que poderia ser mais uma resenha corriqueira nos causa uma doce surpresa que nos deixa sem palavras, sem deixar de salientar que o amor nu e cru… bem, perdi as palavras…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s